One day in the life

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It’s been tougher than words can say. A long, uncertain journey, that brings the prospect of a (mandatory) inner transformation, but painful, really painful. Friends, family and co-workers have been amazingly supportive (and, actually, even strangers), and I’m thankful for being surrounded by love — but in the end this is a solitary route. Fine, that’s supposed to be kind of an Enhanced Existential Principle, like, we’re all alone etc, but right now… OH BOY WHAT A SCARE.

It hurts in my heart, in my ghost tumor, which I currently don’t know whether is still micronavigating somewhere in my body (noooo), and, actually, it hurts all over. Each physical or emotional pang, twitch or goosebumps rings the red button in my cracked head. Is it it? What is it? I’m getting used to that “C word”, that taboo word, that everybody-looks-down word — Cancer. Qué más da. I’m a warrior, I’m a chicken, I’m a warrior, I’m selfish, I cry some more. I’m a wreck right now, I Can Everything, I’m lost. I breathe, I concentrate, I meditate, I cry some more. I get ashamed of crying, I say to myself I’m brave, then I weep like a child at hospital corridors, public bathrooms, bank queues, my pillow at night.

And the things I hear. Ouch. I know most of them are well-intentioned. What would my comforting words be if it wasn’t with me? Tough, I know. But guys, #justsaying: please, as much as you can, try to acknowledge what a cancer patient (and, actually, anybody who’s having a really tough time) is going through. No, my cancer is not “easy”. It isn’t “nothing” — I feel it, I’m sorry, I honor my pain. It often feels like a nightmare. On the other hand, I know one’s got to #riseandshine (my new puppy mantra) and be strong and positive, cause — I do believe too, I’m trying! — that’s the right thing to do. Ya. I feel you. It’s getting hard. ;) Finally, please, don’t tell me about the cousinofthewifeoftheneighbour that passed away from cancer. And, please, try not to cry or act desperate/dramatic to show your sympathy, cause deep inside this only makes me sad (and desperate and dramatic, for I’m a sponge for emotions lol). I know you care.. If you can, please, send me cute cat memes instead. Let’s talk about life.

Hm errm right.

I’ve been saying to my dear ones: please, don’t worry about the right words. Just be with me. That’s so important. It’s usually so hard for me to ask for help (I know I know I’m terrible). And, also, as I said, talk about life. I want to know your stories and your fears and happy moments too. Don’t reduce their importance, thinking oh, she’s got cancer, nothing compares… Nobody compares to nobody. We’re so unique. I’d go mad if I thought that.

I was supposed to get some results last Thursday, when I had my first appointment with the oncologist. I like her (a relief, cause we’ll be seeing each other for quite some time). Practical and attentive. Maybe too practical. I got no further answers from what I’ve already been told — I’m a stage 1a (good), grade 3 (not good), HER2-, PR+ ER+ (super hormone positive). Instead, she sent me to some CTs, bone scintigraphy, (more) blood tests. Also, we’re sending a paraffin-embedded sample of my tumor for a MammaPrint genomic test in Amsterdam, and I went in person to pick it at the hospital and take it to the clinic. Walking around Sarrià on a sunny autumnal afternoon with Mariah in my bag, what a blast.

The delay on knowing what’s next kills me sometimes, but I’m slowly learning how to cope with uncertainty. And whenever I feel weak and weary, I remember the radiologist’s words, one day after the diagnosis, as he performed a lymph nodes echography on me (while I sobbed and stopped, self-punishment style): don’t see this is as a problem, but as the beginning of the solution.

Yoga, respiratory exercises (thanks to my wonderful personal coach and sister rubita TM) and love from dear ones has been my medicine. I got beautiful flowers from work, lots of lovely hugs, comfy food and deep, heartwarming conversations.

What about love for myself? I find it easier to pity than loving myself, but I’m learning. I’ve been playing around with some post-surgery selfies, and I like it, and this in turn is giving me one or two ideas for the near future. <3

I’m also connecting with some amazing women who are facing BC or have been through it — and more. Cancer is closer to a chronic disease than ever — that means that treatments are improving patient’s lives and life expectancy, but also refers to the fact that the fear of recurrence is real, and long-term. I’ve been meeting wonderful beings who have been through an awful lot. Each experience is unique. I’m learning with them, and with mine.

The other day I had a normcore dream, like, just a normal day in-the-life, I mean, for some of you, cause to me it’s a dreamday, a cancer-free, care-free day, with normal errands and normal rights and wrongs like not long ago, and, well, when I woke up it took me some moments to realize my real non-normcore reality, and when I did it felt like a Full Shock from fringe to toes, THIS CAN’T BE.

But hey, acceptance and warrior spirit are coming in waves.

I’ve been to four hospitals today, between transporting tumor samples, explaining my breast cancer to a team of gynecologists so they could tell me whether public health could fund a cryopreservation of my eggs (errm?), plus CTs with contrast (yey, signing papers where they warn you that you’re about to receive the equivalent of 900 x-rays and, hey, THAT might increase your risk of getting cancer, ora ora) and some paperwork. I went through the day without freaking out, kudos for me. (nonono, Susana, it’s just what you’re supposed to do now, be brave, be positive, you can, feel the love, focus etc) (I hear this all the time, but I’m my toughest couch). And then, at the end of the day, while I nonchalantly explained all this to my bf I went: wow.

And wept some more, this time on my (medicinal, inspiring, really brave) boyfriend’s shoulder, cozy as an autumn evening, a Friday evening, never again trivial………..

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Abertura

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eu//por//eumesma//1semanadepoisdacirurgia

Pouco mais de duas semanas atrás, minha vida mudou.

(eu pensei em mil maneiras de começar esse dificílimo texto de forma mais original, mas é issaê precisamente rapaii y además cos dois pé na porrta)

O diagnóstico. Câncer de mama. Eu já vinha fazendo exames há mais de um mês por conta de um nódulo, e a cada novo pedido de uma radio ou biópsia (eu fiz duas, com bag, que é aquela agulha matadoira, até eles concluírem que a mariah era séria) uma angústia renovada apertava meu corazónzinho.

No dia em que teria que sair o resultado definitivo, fui caminhando lááá da putaquepariu em Barcelona (onde vivo) até o hospital. Tipo peregrinação, um step at a time meditação mointo ativa. Era 05 de outubro, uma quinta. Sem hora marcada, cheguei na recepção do setor de radiologia e peguei o informe médico. Abri e tava lá

carcinoma

invasivo

Nem vi mais nada. Falei que não saía dali sem um especialista me explicar que coño/caray/fuck era aquilo. A voz saía pastosa e eu tava me sentindo uma ervilha super cozida. Algo assim distante viscoso foradocorpo e muito muito insignificante.

(essa sensação, aliás, às vezes volta ainda)

De alguma maneira consegui chegar no quarto andar, onde ficava a área de ginecologia (nunca um trajeto de elevador foi tão loko). Long story short, as mina da recepção me olharam, viram meu nome e disseram entre elas: ah, é ela (mais sensação de viscosidade altercorporal). O doutor vai te ver agora.

E eu sentei na sala da recepção, ao lado de casais e grávidas alisando suas barrigas. Sozinha.

— Sozinha? Você está sozinha? — perguntou o médico mais tarde, durante a consulta. Eu olhei pra ele um pouco perplexa. ‘Sozinha… no mundo ou aqui?’.

Porque eu não pensei. Eu não sabia como era. Eu não tava acreditando. Eu nem sabia o que fazer — se eu disfarçava ou tinha um treco ali na frente daquela plateia tão comfort lavanda (aiin Susana sua exclusivista. é que no momento a gente pensa que ninguém mais — ).

O médico efetivamente veio, um senhor catalão de cara simpática y cansada com seus cabelitos brancos, e me disse, amável, mas distante, que eu fosse até o restaurante no térreo comer alguma coisa enquanto esperava ele voltar da reunião com a junta médica, dali a uns 40 minutos.

‘Comer?!?’ — quase creio, em minhas memórias obnubiladas, que brotou um meio-sorriso no meio de minha figura trêmula. E se foi.

***

O pior do diagnóstico foi uma sensação horrorífica de solidão + um medo do carayyyo de morrer. (não, não me digam nada, eu já ouvi demais, mas sobre esse delicado e multiversável tema eu falo mais outra hora). E, finalmente, impotência. Eu? Por quê eu? Se me sinto tão saudável! O tratamento vai me fudê a saúde. E nem sei se vai funcionar. E. E.E. E esse médico que não me consola. ‘Sim, não é uma boa notícia, mas existem tratamentos’. Não NÃO, me diz que eu vou ser salva, que vou viver!! ‘Você tem sorte, porque entre mulheres mais jovens o tumor tende a ser mais agressivo’. Pausa. Eu devia estar com uma cara bem loka. ‘Susana: eu preciso de você aqui agora. Você está me entendendo?’. Eu agarrei a mão dele, chorando. Não sei se outra vez a memória obnubilante distorceu o momento, mas achei que ele se emocionou. E me abraçou. ‘Nós vamos te curar’, disse. E é por essa única frase, mais humana que científica, que pude me sentir 0,01% melhor.

Saí do consultório e naquela tarde mesmo comecei uma bateria de exames preparatórios pra cirurgia de extração do tumor. Só não operei na semana seguinte porque havia um feriado e, de leve, ia rolar a declaração de independência da Catalunha (veja só que momentaço interessawnte pra rolar tudo isso).

***

A cirurgia de lumpectomia e extração do gânglio linfático aconteceu no dia 17 de agosto. Sim, eu tive ‘sorte’: não é uma mastectomia (quero falar mais sobre as sutilezas da questão adelante). Eu tive amigos e meu namorado comigo, fui muito bem cuidada. Minha família está a países ou a um oceano de distância, no caso dos meus pais, mas está sendo incrível. Valente e serena. Eu que sempre me considerei meio ogrinha antissocial (ou ‘chatinha’, segundo um querido amigo meu, que me acolheu em sua casa após a cirurgia ;) ) me surpreendo com a generosidade que vou encontrando pelo caminho. Sou muito grata pelo amor à minha volta.

Agora, esperando o resultado da biópsia do tumor pra saber os próximos passos, estou respirando mais fundo, vendo mais colorido. À noite os fantasmas vêm me visitar, e tenho medo, sim. Muito medo. E fascínio. Que eu sou escorpiana e arxtista caray. Mas eu sempre acreditei no amanhecer.

***

Estou contando essa história, me expondo de uma maneira que não é muito fácil pra mim, porque eu acho importante. Pra mim, pra outras gentes que estão vivendo ou viveram um câncer, especialmente de mama, e, na real, pra todos nós, por tantos vastos motivos. Eu até gravei um recadim (relevem a qualidade, que eu gravei no rompante tipo foda-se-preciso-falar no dia anterior à cirurgia):

Desde o diagnóstico, já me informei paka e tenho uma perspectiva cada vez mais profunda do câncer, sua evolução e tratamentos. Além disso, tá sendo uma intensa odisseia interior. Eu vou criar um espaço pra compartilhar alguns aspectos dessa errrm experiência na medida em que puder, porque quando eu encontrei na internet gentz parecidaz passando pelo mesmo e escrevendo a respeito eu pude me sentir muito, marr muito mais recolocada no mundo, e daí quero contribuir com meu pãozim.

Aos poucos, também uma ideia criativa está vindo. Logo menos vou botar isso pra fora. Transformação, movimento, rise and shine…. >>>

king lola – say it right

 

 

Ps. em breve vou traduzir meu palavrório pra inglês e espanhol, que eu tenho amigo em tanto lugar que gostaria de tornar isso acessível pra eles (e outras pessoas) também. Vou fazendo, mas se alguém superpowa puder me dar uma força também please me diga. Muitas gracias xx :)

sunset - almas creadoras

One day you finally knew

what you had to do, and began,

though the voices around you

kept shouting

their bad advice–

though the whole house

began to tremble

and you felt the old tug

at your ankles.

“Mend my life!”

each voice cried.

But you didn’t stop.

You knew what you had to do,

though the wind pried

with its stiff fingers

at the very foundations,

though their melancholy

was terrible.

It was already late

enough, and a wild night,

and the road full of fallen

branches and stones.

But little by little,

as you left their voices behind,

the stars began to burn

through the sheets of clouds,

and there was a new voice

which you slowly

recognized as your own,

that kept you company

as you strode deeper and deeper

into the world

determined to do

the only thing you could do–

determined to save

the only life you could save.

Mary Oliver in New and Selected Poems (vol. 1)

:: o puteiro e os meus filhos

alice no país das maravilhas por dali - A Caucus Race and a Long Tale

Alice no País das Maravilhas – ilustração de Salvador Dalí

ontem estive num puteiro discreto.

numa rua romanticamente antiga, prédios antigos, ar antigo a suspirar por bueiros antigos a mesma puta antiga canção, que não sei qual é, não consigo ouvir, nos meus sonhos é apenas recuerdo, no me acuerdo..

entramos pra uma copa de vinho e a continuação da conversa. só a senhora detrás do balcão, madeira escura, tevê com volume no talo, o timing do señor desdentadoperoelegante que entra diligentemente cinco minutos depois e se senta no banquinho ao lado e pede provavelmente o que sempre pede.

queria nos pagar um vinho. falávamos de i-ching. éramos só nós ali, no silêncio de uma noite de pueblo.

a senhora tirou a medalhinha dourada que levava numa corrente no pescoço e o balançou sobre nossas palmas. disse que eu teria um casal de filhos.

ela, casada e divorciada quatro vezes, madame, os olhinhos claros, açucena.

<3

:: D’antanho

pra onde vão
os passarinhos
quando
morrem?

Não importa quantas vezes
você sabe quantas vezes
você tem que falar
no ouvido
pela pele
por poros
abertos
ao pulso
sem água
minguante
cortando gargantas
das tuas pequenas historinhas
sem aço
eu vejo você
apertar o passo até a porta
segurando pelo pescoço
todas as tuas vozes

21:13
bill arranhou o braço do sofá . deitou . o ventilador de teto era
marrom . morreu.

22:19
ele passou a mão pelo cabelo e a sujou de sangue.
não!
ele passou a mão no cabelo, de onde se desprendeu um cheiro ocre, vermelho.
não–
ele passou a mão pelo cabelo e lembrou que tinha que pegar as roupas
na laundry aquela tarde.
Não tinha ainda se acostumado à vida mondriânica (passas, paris,
texas) daquele seu quadrado. Morava a dois quarteirões da Paulista,
mas era schrimp (?) o tempo inteiro. Pois ele passava a mão
ininterruptamente pelo cabelo quando desceu aquela calçada, sol a
pino, esperando verão, hora aleatória do dia.
Quando pulou o terceiro buraco no concreto, sentiu uma pontada no lado
direito da barriga.
Uma pontada, não, uma porrada; inclemência.
Segurou-se numa árvore do projeto-urbanizeSP. A mão rastelou o tronco
e chegou depois do corpo ao solo: barulho surdo: tac.
Quando despertou, havia gavinhas em torno dele: tinha virado um
maracujá, passion fruit, pura noite.
Pensou: amanhã eu pego as roupas.

18:22
Esta é a estória de Iko-Iko, o garoto que vivia entre paredes.
Não que vocês não saibam do que estou falando. Todos somos, em maior
ou menor grau, indoors-bichos.
O dia de Iko-Iko começava com um pequeno périplo quarto-banheiro-cozinha.
No geral, terminava com o curso inverso, a não ser quando havia um
filme bom na tevê — nesse caso, adormecia no sofá da sala.
O miolo do dia transcorria como variação sobre o mesmo tema,
acrescentando-se a supracitada saleta-de-estar, que ficava entre o
quarto, o banheiro e a cozinha.
Um dia, Iko-Iko se suicidou.
Muitos dias se passaram antes que alguém arrombasse a porta e
descobrisse o corpo de Iko-Iko, já em avançado estágio de flibbers,
agachado num canto da salinha-de-estar, tal múmia inca.
A tevê encontrava-se desligada. Tudo mais ou menos arrumado, pois
Iko-Iko não era de bagunça. De um copo em cima da mesinha-de-centro,
recheado de matéria cremerela, emanava um cheiro azedo de anteontem.
Iko-Iko foi enterrado sob o solo da área de serviço, único território
inexplorado em vida pelo garoto. No epitáfio, um pedido: não comam a
minhoca.

17:37
ODE AO SANGUE

Aquela fina dor que redondeia os campos-sonhos
à distância o latejar de velhas carroças, sem poeira, por favor, pra
não manchar a pureza da cena de verão
eu me demoro no vermelhovidro imanente-pulsante por trás da moça
líquida sobre o pano; ela quase desfalecida, como um bom quadro;

no vermelho eu resido, encampar solitário, sem requinte de extração,
nenhuma distância, somente o líquido puro e jato, glopiscando no
plástico transparente, aquele tubo de ouro que guarda um sobrenome,
escarlate força, eu me desalinhando em outro, o sangue me tomando
enrubescendo ruborizando roux roux roux, manhã intensa como o dia em
que coletei sangue, talvez o dia em que morrerei, amo-te, sangue, meu
sangue, minhas veias venas, que saltem sístole-diástole, prolonguem a
saúde do meus meses memes (Aqui Entra O Outro), manifestem a
verdadeira cor da terra, onde todo sentimento afila e morre, dá lugar
ao inato, sangue-verde, toma meus braços e faze-os ferver, dizei tudo
em pretéritos de língua estranha, oculta lógica do viver-morrer,
respira em falso porque tudo em você é falso, tudo brilha como nunca.

hoje eu coletei sangue
11.03.05 – sexta quente

15:09
OOOOOOOFFFFF! EU SOU EU NOVAMENTE! OH, BELA VIDA, RETORNAR A SI,
DOMENICA, LUZES, UMA BOA NOITE DE SONO E——-> UMA XÍCARA DE CHÁ
QUENTINHO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

2:52
(((Devotion — Earth, Wind & Fire)))
Minha mãe esvoaçante, meu pai parelhando suas vistas azuis com o mar,
aquela onda antiga, o banho e o deque de madeira, o caminho de terra,
o chão tão próximo e povoado de existências estranhas, o porto, a
sopa, o trabalho de escola sobre abelhas, as tardes e o medo do não, o
radinho.
Vou comer todo o papel, os cabos de fibra ótica, minha boca vai
reclamar sozinha até um raio fritar minha cabeça e eu pender como um
ratinho para o lado direito, pobre ratinho que não teve história.

2:08
e eu, que sempre me pergunto o que vem depois dos finais,
sempre que vejo o roll, sempre que durmo,
sempre que canto, penso que termino,
mas não vai embora,
tamborila aqui comigo,
e é presente como a minha mais perfeita gota
que meu corpo, tamarizado, virado em globos egípcios,
poderia em toda sua concentração plup.

2:05
naquele dia eu reluzi(a) em perfeito vermelho-tarde;
com o metal, éramos um grande e luzidio sáurio
retendo todo o verde dos cactos americanos
engolida-nos por fora, jamando-lãs brancas peles
que coisa — eu abaixei por um momento —
porque havia aquela pedrinha tão pequena
e, ao voltar-me para a estrada,
nada.

14:08
eu
não tenho nada contra
andar
cambaleando
até cair

:: eu te odeio

eu te odeio,

eu te odeio com todas as minhas forças,

eu te odeio brilhantemente como um casco luzidio de cavalinho upa upa ao sol de western cries,

eu eu eu te odeio odeio odeio você você você.

quem quer que seja você, quem quer que estejamos, eu passo a mão pela pele e é fria e tombadiça, marujo desequilibrado no convés que nunca vi, mas como te quero, como te quero morto e frio e tombadiço num convés a caminho de Ceuta, esse país de livros, teu cadáver bem arranjado com flores e uma noiva muito branca chorando aos seus pés.

eu te odeio porque te amo, odeio te amar, odeio não ter o que fazer com este amor, com este ódio, com esse véu perdido nos idos de 2012 que me deixa a sala pequena, olho-me-olha não estamos à vontade um com o outro, quem é você?, sou seu véu branco e perdido, eu sou sua dona, que digo!, mas não mais, nunca quis, não é verdade? meu corpo se movimenta táctil e soberano entre névoas, e sou uma naja porcina recendendo a jantares em sítios de coroné. Eu li muitos livros, de que me adianta? Se sou uma triste sombra, se ando pela areia e os dedos estão sujos, quem vai beijá-los? que me beije imunda.

:: zefiní

zefiní, estou tonta.

bebi mais da conta, estou tonta.

quero ligar pra ele, quero um colo, um carinho, estou tonta, esvaio por um buraco pequenino e sem importância, esvaio como uma guimba no bueiro, por onde alguém passa, por onde alguém pisa e nem se liga, estou indo, indo….

estou me esvaindo.

girando no vazio, cambalhotas no vazio, arte vazia no vazio, estou-me indo.

que orgulho o quê, que passado e que futuro, que presente-presente, não creio em nada, só no impulso, no tropeço que me acorda a fuça vazia no solo áspero como uma gilipollas, yo quiero caer, déjame caer, que não me venham braços ou poesias, que isso tudo me cansa, me faz fundir sovaco com mão com resto de pelos sobre o travesseiro, assim um tudo-sem importância.

eu bebi, eu bebo, eu faço como se fosse uma onda, uma gaivota tentando equilibrar-se num puto tronco, coisa nenhuma, pra motivo algum.

nem o pôr-do-sol, nem a gilete, nem o banho quente. nem nada. nem uma nota sequer, que não me venham acordar com as frases de requinte, as frases quentes pra deixar meus pés quentes as orelhas quentes que alguém já adiante na esquina se desocupa em dizer susana-tadinha-está-triste.

estou triste, estou miserável, isso não é nada perto de quê, de nada, de guerras e canudinhos listrados em bocas pintadas de rosa num bar onde falam catalão, isso não é nada, minha filha, já passei por coisa muito pior, todos passam por coisa muito pior, onde está a comunicação? a comunicação em silêncio, todos gosma abaixo pelo bueiro, nos encontremos no miasma, nesse puto frio de tarragona, no puto frio de minh’alma.

:: Nam tales #1

sean flynn - self portrait - cambodia

“This will be the end, I know,” Lili had cried to a friend on learning that Sean was headed back to Vietnam that March. Interviewed by the Palm Beach Daily News the day after her only child, and only living blood relative, was reported missing, she quoted the close of the letter he had written to her minutes before his flight from Saigon to Phnon Penh. As if he shared Lili’s sense of foreboding and was bracing her for the news to come, he encouraged her to take comfort in “this idea that all things here in the world are God’s toys, you, me, Cambodia. Make peace with Him and your heart is still. Do you know how to do it? Watch the plants, rains, sunsets, bugs, the changes in the wind, sea and clouds. Watch them and relax in peace. There is a place for all us.

“Must go,
Love, Sean”

from: http://www.thenervousbreakdown.com/drhaney/2013/02/nowhere_men/

Sean Flynn – self portrait

:: dessignificados

passarinho

hoje, no bureau aqui no distante, longínquo, talvez mais-perto-que-nada Camboja, um passarinho ficou preso. batia nas janelas fechadas, procurava ar, não conseguia escapar. eu abria os vidros, as portas, eu o chamava, ele não sentia o vento nas asas, com o bico entreaberto, talvez de cansaço, pousava sobre as gigantescas pilhas de papel empoeirado, em cima dos armários de madeira vermelha meio empenados, sobre as mesas de escritório. eu chorei, chorei….

voltei agora e ele saiu. sumiu………..

:: tempo moinho

harlequin_bug

Não que o púrpura

Algum outro tempo

De brandos brancos

campos de lã

Mas você grita

Você pede

E os céus se abrem

Em deliberada música.

(Harlequin bug adult (Murgantia histrionica).
Russ Ottens, University of Georgia, http://www.insectimages.org)

:: era abril

hug your inner child

Corazón partindo

Ínu

infinito

Descolando as pregas das

perguntas

Soltando as crianças no

quintal

No Sol o olho o sol.

:: aqualand

alice no país das maravilhas por dali - the pool of tears

Talvez

* Lá no fundo

elas quisessem ser putas ou

peixes.

(ilustração: Salvador Dali, The Pool of Tears, 1965 – Through the Looking Glass)

:: tuesday’s lullaby

I'll be you and you be me - ruth krauss, illustrations by sendak

chora, menina, chora,

que o minuto seguinte é mistério,

aceite o mistério, abrace durma com ele e faça amor com ele

como com um ursinho de pelúcia,

a cabeça nas nuvens, o corpo desencarnado,

os ossos dos pés fazendo clac clac no chão gelado,

o sim e o não,

aceite entregue confie.


chora, menina, chora mais,

que ainda não é suficiente, teu coração angustiado

pede que a narrativa se estenda em séries da fox,

coisas assim.


já é de anteontem esse choro, já nasceste neste mundo,

já usaste a segunda pessoa do singular, já sabes que não funciona,

que o verbo é coletivo, inclusivo, angular, redondo, flutua e já não é mais,

virou tufo de girafa ao vento.


as girafas não se beijam, ou se lambem com suas línguas roxas compridas e afiadas.

as folhas secam apodrecem e geram novas folhas.

coisas assim.


não é momento, já é momento, já foi, será,

chora, menina, chora,

que o sorriso que se entrevê já cora suas bochechas

com o rosa da tarde, criança-menina, criança-aurora.


(ilustração: Maurice Sendak. In: I’ll be you and you be me, by Ruth Krauss)

:: laying eggs (Deus Urso)

thecrowsofpearblossom_illustrations by barbara cooney2

cada dia novo uma loucura,

cada loucura um dia novo.

novinho em folha.

nonovivivivivivivivinho inho inho cuti cuti inho nhonho nho nhooh.

assim que nem ursinho de pelúcia,

se tivesse penas y voasse.

abençoai-nos, ursinho,

que não sabemos o que fazemos,

e não temos pelos

só peninhas.

(illustration: Barbara Cooney // The Crows of Pearl Blossom – Aldous Huxley)

:: taquicardia do dedo azul

a ação ocupa o espaço gósmico do vermezito

subindo pelo meu dedo azul.

eu miro a ação a ação me mira eu miro eu caio

no buraco do gesto

dedo azul azul dedo gósmico

aponta para aquele canto amarelo

e descascado

de parede-de-bar de anteontem

quando eu nem existia,

nem sonhava

halls de framboesa tomando poeira

nas estantes do caixa, dedo azul

na registradora do meu avô,

a criança azul com o dedo azul

brincando no quartinho dos fundos

antesdeantes de anteontem,

confortavelmente soterrada minada

entre bíblias ilustradas

e letras douradas de enciclopédias escolares,

entre a cama onde dormiu tanta gente

que hoje não suspira mais, que hoje mais adiante talvez

num retrato, a oferta do tchawan de gorran

em prece, em silêncio, mira eu mira nós

como no cemitério em Santiago, as cores dourando tumbas discretas

no sol quase-português, dividindo-idos entre ateus,

cristãos, indecisos e suicidas.

os suicidas cor-de-rosa.

(ilustração: coração – ingryd lamas)

:: meditação para o outono

build your inner strength

Terra, Ensina-me a Lembrar
                            
 
Terra, ensina-me a quietude,
como a relva é silenciada pela 
                                            [luz.
Terra, ensina-me a sofrer,
como as velhas pedras sofrem 
                        [com a lembrança.
Terra, ensina-me a humildade,
como as flores são humildes em 
                        [seus primórdios.
Terra, ensina-me a acarinhar,
como a mãe que envolve seu 
                                        [bebê.
Terra, ensina-me a coragem,
como árvore que se eleva 
                                    [solitária.
Terra, ensina-me a limitação,
como a formiga que rasteja no
                                         [solo.
Terra, ensina-me a liberdade,
como a águia que paira no céu,
Terra, ensina-me a resignação,
como as folhas que morrem no 
                                        [outono.
Terra, ensina-me a regeneração,
como a semente que brota na 
                                    [primavera.
Terra, ensina-me a esquecer de 
                                    [mim mesmo,
como a neve que derrete 
                            [esquece sua vida.
Terra, ensina-me a lembrar da 
                                            [bondade,
como os campos áridos choram
                                         [com a chuva

Entramos na Caverna do urso, no Oeste da roda Medicinal, no Tempo de Outono. Aqui vamos escutar. Aqui vamos resgatar fragmentos de nós mesmos que foram deixados em diferentes tempos de nossa existência. Recuperar partes de nós mesmo que ferimos, que negamos, que culpamos.

http://www.xamanismo.com.br/Voo/SubVoo1203710422It005

infelizmente não sei de quem é a imagem.. <3

“Louis Vuitton hosted a party in Tokyo Thursday night to fete its “Timeless Muses” exhibition honoring a handful of inspiring women, but Fiona Apple probably made the biggest impression of the evening. 

Apple grew frustrated with the ongoing chatter in the venue, a hall at Tokyo Station Hotel, where the exhibition makes its home. Partway through her short set, she climbed on top of her grand piano and asked the audience to be quiet so that she could perform. She then challenged everyone to be silent for the duration of a tone she created by striking a small metal bell. The performer grew even more angry when the noise in the venue continued.

Apple instructed the audience to “shut the f–k up” and uttered other expletives, both audibly and under her breath, calling the event’s attendees “rude.” She continued with her set before shouting, “Predictable! Predictable fashion, what the f–k?” as she stormed off the stage. The show was punctuated with other bizarre moments, such as when she hit her head with her microphone, did a back bend over her piano bench and stared intensely at her guitarist as if in a love-struck trance.

A Louis Vuitton spokesman declined to comment on the performance.” – from WWD issue 08/30/2013

 

:: Spider Veins

I’m tipping into a spiral
I’m edging to the sea
my bones are broken
my legs apart
I want to receive you
I want to receive you

Feel drawn to the cabin
climbed rocks, don’t regret it
the eagle clutched and fled
my spider veins to the top
The lamps are lit
My eyes are shut

I want to read you
from cover to cover,
portray your sorrows
I’ll make them mine

I want to read you
all over, within
I can see through
the mist of pain

I can see through
realms of dreams
deep inside
only a sigh
nursed by shadows
who cry and cry

faces overlap
I read you, I read you
the ground breasts
are ready to wake you

Suu

6.jun.2014

cortázar

Don’t leave me alone in front of you,
don’t set me off to the bare night,
to the razor-edged moon of crossings,
to being nothing more than these lips that drink you.
I want to approach you from you yourself
with that movement that your body unleashes,
that it spreads beneath the wind like a black canvas.
I want to reach you from you yourself,
seeing you from your own eyes,
kissing you with that mouth that kisses me.
It cannot be that we are two, it cannot be
that we are
two.

 

No me dejes solo frente a ti,
no me liberes a la desnuda noche,
a la luna filosa de las encrucijadas,
a no ser más que estos labios que te beben.
Quiero ir a ti desde ti misma
con ese movimiento que fustiga tu cuerpo,
lo tiende bajo el viento como un velamen negro.
Quiero llegar a ti desde ti misma,
mirándote desde tus ojos,
besándote con tu boca que me besa.
No puede ser que seamos dos, no puede ser
que seamos
dos.

Julio Cortázar (1914-1984) is one of the most important Argentine novelists and short story writers of the twentieth century. Most of his literary production occurred while he was living in exile in Paris. His poetry was not as well known and remains largely untranslated.

These poems originally appeared in the text Último Round, Siglo Veintiuno Editores, 1969.

Trans: Jacob Steinberg, 2011.
Source: http://upliterature.com/two-poems-by-julio-cortazar/

Tino Rodriguez  and Virgo Paraiso - strange flowers blossom

dez mil voltas ao mundo depois
o encanto se fez
por trás da pedra
o verde e a voz cega
brotando em raios
a rosa é guerrilha
escondida nas perdizes
na bata do padre
no não sei não senhora.

image: Tino Rodriguez, Strange Flowers Blossom, 2004.

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